Entre estilhaços e faíscas: reflexões da psicologia analítica junguiana e da mitopoética sobre o TEA
- martinezmonica6
- há 2 dias
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Entre os textos que li nas férias, um segue ressoando em mim até agora. Trata-se de um ensaio sobre o transtorno do espectro autista (TEA), escrito pela analista junguiana norte-americana Susan Williams, a partir de uma perspectiva mitopoética.
Nesse texto, Williams propõe uma analogia instigante entre crianças com TEA e os mitos de criação — ou, mais precisamente, com a ideia de que houve um estado primordial de totalidade do qual nos afastamos. Na tradição cristã, essa ruptura costuma ser narrada como uma queda: Adão e Eva, após a desobediência, são expulsos do paraíso. A perda da unidade original aparece, assim, associada à culpa e ao erro.
Williams, porém, busca uma imagem em outra tradição: a cabala, vertente mística do judaísmo, que não fala em queda, mas em estilhaçamento. Trata-se de uma tradição simbólica que procura compreender a relação entre o humano e o divino não por meio de dogmas, mas de imagens arquetípicas capazes de iluminar experiências psíquicas profundas.
Segundo essa narrativa da cabala, o estado original — o Ein Sof (o Infinito) — criou vasos destinados a conter a Luz Divina. No entanto, quando essa luz foi derramada, os vasos não foram suficientemente fortes para suportar a intensidade das emanações e se despedaçaram (Scholem, 2008).
Nesse desastre de proporções cósmicas, os fragmentos dos vasos se espalharam pelo universo — imagem que, confesso, evoca em mim algo do Big Bang. O ponto crucial é que esses fragmentos continham centelhas da Luz Divina, inclusive aqueles que se transformaram em matéria.
É nesse contexto que emerge a noção de Tikkun Olam, expressão hebraica que pode ser traduzida como “reparação do mundo”. Pessoas, objetos e acontecimentos carregariam essas faíscas, oferecendo oportunidades para despertar a totalidade em nós e, assim, restaurar simbolicamente um mundo quebrado.
Para Williams, essa metáfora permite olhar para os discursos repetitivos ou as brincadeiras reiteradas de crianças com TEA de outra maneira: como “uma faísca na matéria, presa nas minúcias infinitas, esperando para ser devolvida à sua totalidade original” (Williams, 2023, p. 273). Na psicologia junguiana, imagens míticas como essa não são lidas de forma literal, mas como metáforas vivas que expressam modos possíveis de funcionamento da psique.
Já atendi — e atendo — adultos em nível de suporte 1 do espectro do TEA, e algo que sempre me chama a atenção é que os movimentos costumar ser mais lentos, mas há movimento. Trata-se de um cuidar amoroso e paciente, que acompanha mais do que propõe grandes intervenções.
O que mais ressoou em mim nesse texto foi o deslocamento que ele provoca em relação à ideia de “normalidade”. Afinal, nós — os ditos neuróticos, tão presentes nos consultórios — também tendemos a girar em nossas próprias rodinhas de hamster, pensando, sentindo e agindo de modos repetitivos, muitas vezes automáticos. Até que algo — ou alguém, como uma/um psicoterapeuta — consiga romper esse feitiço.
Essa percepção abriu meu coração de maneira especial. Ajudou-me a acolher mais profundamente as pessoas com TEA, ao mesmo tempo em que reconheci algo de mim nelas. Talvez porque, no fundo, sejamos todos vasos estilhaçados, portadores de pequenas faíscas, em busca de alguma forma de reparação.
Monica Martinez
Verão de 2026
Referências
SCHOLEM, G. As grandes correntes da mística judaica. São Paulo: Perspectiva, 2008.
WILLIAMS, S. Despertando para a intersubjetividade: trabalhando com o transtorno do espectro autista. In: PUNNETT, A. (Org.). Análise junguiana de crianças. São Paulo: Paulus, 2023. p. 257–294.
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